Olá.
Queria fazer a pergunta do tópico e também contar o que me aconteceu.
Me interesso muito sobre o tema porque tem uma pessoa da minha família que vive em condição de isolamento social voluntário; procurando ajudar esse familiar reconheci que eu também passei por uma situação anteriormente e que me marcou muito profundamente.
Queria muito ajudar esse meu parente, mas não sei como. Para mim foi fundamental sair de casa, mas para ela não tem caminho de saída, está muito bem em casa, os pais nem permitem sair de casa. Um dia chamei para ir no carnaval e a mãe disse assustada que poderia ser ruim se encontrasse uma pessoa. Tentei outras abordagens, mais sutis, mas nada que minimamente comportasse uma saída de casa, nem do quarto.
Queria fazer uma pergunta a você que lê: Essa pessoa da minha família teve uma “desilusão” amorosa. A pessoa isolada tinha cerca de 30 anos e a pessoa pela qual se apaixonou 14. Será que o isolamento atrapalhou a reflexão ao achar que a diferença de idade não seria um empecilho? Será que buscava voltar à adolescência ao se relacionar com uma pessoa dessa idade? Será que projetou um relacionamento justamente por ser impossível? Como você, no isolamento, vive sua afetividade?
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Minha história
Me isolei de forma voluntária. Sinceramente, não saberia nem dizer quanto tempo, foi mais de um ano. Os dias e meses não tinham significados e parece que eu não contava e, por isso não lembro bem desse mais de ano no escuro. O começo foi no fim do ano, em meio aos festejos e depois de ter parado a faculdade. Comecei a falar cada vez menos com os amigos, que eram muitos e bons. eles me procuravam, mas eu evitava e eles respeitavam. Tinha namorada, uma pessoa muito boa. Com ela eu saia, mas quando as agendas não combinavam, parece que o dia simplesmente não existia no calendário.
Lembro-me de uma vez que uma prima veio trazer o convite de casamento. Eu estava no quarto e ouvia a conversa; minha prima perguntou duas ou três vezes por mim, minha mãe disse que estava dormindo. Pensei em sair do quarto, mas eu estava sem tomar banho. Eu achei que ela tinha embora e fui ao banheiro, quando ela me viu ficou horrorizada, não disse nada, mas ficou impactada. Depois minha mãe falou do casamento, mas não me mostrou o convite nem falou a data. Eu queria ir, mas acho que minha mãe viu que eu não tinha condições.
Eu saia de casa, ia no parque, por exemplo, mas com muito esforço e me sentia mal. Ia um dia no parque e passava três fechado no quarto, nem na varanda saía.
Naquela época, faz mais de dez anos, tudo era depressão. E para mim não passava de um longo episódio depressivo. Procurei psicoterapia, não era depressão, era mesmo uma questão de comportamento.
Retornei à faculdade, encontrei um emprego legal, segui com meu namoro, mas tudo com muito custo. Era muito sofrido, sinceramente, ter que fazer qualquer coisa. parecia que o quarto, meu túmulo, era o meu meio ambiente e todo o resto era pesado.
Como sai? Saindo. Fui morar fora da casa dos meus pais, em um apartamento com dois outros estudantes. Não tinha alegria, nem empolgação, vivia com meus medos e inseguranças, mas não tinha o quarto. Simplesmente vivia mas sem aquele “porto seguro”.
Consegui me formar, trabalhar, me casar.
Mas aquele período me assombra de forma muito forte. Não tenho, por exemplo TV no quarto. Entro no quarto só pra dormir. Não durmo de tarde.
Mas no final desse ano me lembrei desse episódio que começou quando o ano terminava. Acho que tenho medo de uma recaída.
Agradeço a Deus por ter me preservado nessa época. Se eu tivesse ido com meus amigos, o álcool teria se tornado um vício para mim. Me conheço.