Eu quero escapar


Toda vez que caminho por esta ponte, penso que aqui seria um bom lugar para morrer.
Haveriam poucas chances de dar errado; eu não sei nadar, a correnteza é relativamente forte, e este trecho é habitualmente vazio, tendo no máximo algum fluxo de carros eventualmente. É um lugar que considero bonito, pelas flores que nascem próximas ao rio e por como a luz do sol é refletida nele. Gosto especialmente das centenas de margaridinhas nascidas na margem esquerda. Que paz me traz imaginá-las me acompanhando na hora da morte.Também, aqui há muitos obstáculos para evitar que o meu corpo se perca, logo me encontrariam e ao menos a minha família não sofreria com a preocupação e com as falsas esperanças.
Não sei se me falta um quê de coragem, ou um quê de desespero. Tenho medo da dor que precede a morte, mas o que são minutos de agonia perto das incontáveis agonias diárias da vida? Talvez eu ainda tenha um instinto de sobrevivência latente. Talvez tenha medo do que há depois e não queira admitir para mim mesma. Medo do desconhecido, da inexistência, do castigo, ou de quaisquer possibilidades absurdas, que não seriam surpreendentes se tratando do nosso universo. Pode-se encontrar o sentido de cá do lado de lá, ou o lado de lá pode ser tão complexo quanto o de cá, ou lá é nada ou outro conceito incognoscível. Com sorte, Deus terá pena de mim e me deixará reencarnar como uma dessas florzinhas; bela e com um ciclo natural bem definido, em sinergia com os meus iguais e compartilhando minhas qualidades com as mais variadas criaturas. Devaneios à parte, não consigo pular ainda… hoje, mais uma vez voltarei para casa com este desejo em mente. Talvez eu só pense demais para fazer qualquer coisa.

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Isso foi bem poético, eu diria…

Obrigado por mostrar um pouco da beleza do mundo pelos teus olhos.

Você não morreria…apenas perderia seu corpo. Somos luz e prosseguimos pelos universos.
Creio que se vitimizar não ajuda …pense em tantos seres que sofrem nesse universo… crianças presas em camas de hospitais…pessoas com dores físicas insuportáveis por doenças …outras abandonadas e perdidas nas ruas …
Faça da sua vida o melhor possível…veja beleza nas florzinhas dentro do seu quarto e não apenas fora dele

A dor é algo extremamente subjetivo e pessoal, sempre haverá alguém aparentemente pior independente do caso, e ter ciência dos sofrimentos do mundo não torna os meus mais suportáveis em nenhum aspecto. Pelo contrário, somam as dores individuais com as dores geradas pela empatia, em vez de me sentir grata por estar em uma situação “melhor”, um sentimento de injustiça insuportável toma conta de mim!
O que me ajudaria seria encontrar sentido no meu sofrimento e no sofrimento dos outros… nunca consegui de fato, apesar de viver buscando isso.

Eu não penso em me matar, se eu morresse não ira sentir mais nenhuma dor, mas também nenhum prazer, o descanso e alivio são só para os vivos, pelo menos se eu estiver vivo posso sentir algum prazer, mesmo em coisas pequenas, isso me parece melhor do que a inexistência. Eu morro enquanto os outros estão vivos curtindo a vida (quando digo curtindo é nos pequenos prazeres) sem se importarem comigo, não é justo que eu tenha que morrer enquanto os outros não se importam e me deixam para trás.

No seu caso não sei se é depressão, se for é um transtorno sério que não se cura com conselhos e sim tratamentos.

Pelo seu relato da para perceber que você é uma leitora voraz.
Ja pensei muito nisso, mas também tenho consciência que a minha mãe ficaria extremamente abalada, ela ja perdeu uma filha e eu presenciei todo o sofrimento que ela passou. Outro motivo para não cometer o ato é o medo da minha consciência permanecer intacta, ou seja, mesmo após o meu corpo apodrecer eu ainda sofreria em outro plano. Entre a dúvida e a certeza, prefiro aguentar a certeza de pequenos momentos de alegria e um avalanche de incertezas e sofrimentos durante a minha vida nesse mundo.