Ilya Ilyich, um hikikomori do século 19?

Estou lendo Oblomov e acredito que o protagonista possa ser considerado um hikikomori. Ele se recusa a sair de casa, tem dificuldades para sair do próprio quarto, e é incapaz de tomar qualquer decisão e agir. Ilya parece desejar que tudo permaneça sempre da mesma forma, procura um certo resgate de sua infância, e opta pelo repouso em oposição ao dinamismo da sociedade em que vive.


1 curtida

Aproveitarei para citar a ending de nhk ni youkoso, que aparenta ser nonsense, mas também fala sobre o desejo de voltar a um estado infantil, quando recebemos amor apenas por existirmos, e a incapacidade de lidar com a vida adulta em sociedade. Esse anime é uma comédia sobre um hikikomori, foi graças a ele que eu associei o termo ao meu comportamento pela primeira vez.

Apesar das semelhanças, as motivações para o isolamento dos protagonistas são diferentes. Ilya não vê sentido em viver de outra forma, e Satou é o típico sociofóbico traumatizado.

2 curtidas

Eu me vejo nisso, sempre procuro por coisas nolstágicas e como eu era feliz e livre quando criança, e como as coisas nunca vão ser as mesmas pq o tempo não pode voltar.

1 curtida

Sim; a inocência, simplicidade e despreocupação da infância são valiosas. Talvez, somente os monges que se purificaram e vivem em serenidade podem reviver essa felicidade infantil.
Também gosto de recordar as coisas que fazia quando era pequena, mas raramente o faço, porque tenho receio de sujar as minhas memórias com o meu eu atual.

1 curtida

Sim. Eu nunca cheguei a tal extremo de não sair do quarto, não querer tomar banho e entre outras coisas. Tenho uma rotina normal, falo com os meus pais, passo algumas horas na parte externa de casa. Porém, faz vários meses que não saio para a rua. Não me identifico com a sociedade. Acho a grande maioria das pessoas chatas. Sempre me senti mais sozinho junto de outras pessoas do que só comigo mesmo.

A organização do ambiente, os cuidados pessoais e as atividades físicas acabam não sendo tão difíceis de realizar, porque o meu cérebro já associou essas práticas ao bem-estar que elas me causam após concluí-las. Entretanto, tenho o mesmo espírito procrastinador e apático do personagem, que fica na cama pensando enquanto está prestes a perder a casa e ter uma crise financeira. Também não posso dizer que tenho uma rotina normal por causa do meu sono e alimentação desregrados.
É complicado construir uma relação com os outros quando nossas visões de mundo, aspirações, e até gostos são discrepantes, normalmente ocorre uma estranheza mútua. Me pergunto se é a nossa excentricidade que nos torna reclusos, ou é a reclusão que nos torna excêntricos.

[Spoiler]

Embora tenha perdido a mulher que gostava, penso que ele teve um final “feliz”. Ele casou-se com a proprietária da casa e foi cuidado por ela até morrer, tranquilamente, em uma cama. Não acabou como uma história de superação ou uma tragédia moralizante, apenas como uma reafirmação de quem o Ilya era.

Eu fui rejeitado pela sociedade desde pequeno. Até mesmo os parentes do meu pai me achavam esquisito. Os meus avós me odiavam. Descobri, mais tarde, quando adulto, que a minha própria avó falava mal de mim quando ia visitar as irmãs dela no estado do Paraná. Na época, eu ainda era criança. Eu era motivo de chacota da família.

Eu era quieto, falava pouco e também saía pouquíssimo para a rua. Eu morava em periferia, meus pais sempre foram pobres. A rua da minha casa nem alfasto tinha. Quando chovia era barro para todo o lado. A minha vó era evangélica fervorosa, perto do fanatismo, eu, por outro lado, duvidava muito da existência de Deus, porém, nunca falei sobre as minhas dúvidas com ninguém.

Enfim, eu acho que eu devo ter nascido com algum talento para afastar as pessoas. Isso ocorre desde muito cedo. Já me acostumei com a situação. Por outro lado, eu acho que você deve ter razão. É difícil você ser aceito quando o seu “eu” é diferente do próximo. Os que são diferentes sempre foram perseguidos e massacrados pela maioria. A história inteira da humanidade está repleta de exemplos como esse. A diferença é que hoje em dia não irão nos matar,mas, seremos ignorados, pisoteados e vítimas da zombação alheia.

Sinto muito. É entendível a lógica de punir quem é diferente para manter a coesão social, mas um adulto agir assim com uma criança é muito cruel, mesmo ponderando os imperativos biológicos e sociais por trás desse comportamento

“A diferença é que hoje em dia não irão nos matar,mas, seremos ignorados, pisoteados e vítimas da zombação alheia.”
Não podem matar, então induzem os inadequados a se matarem. A natureza é linda, lol.

2 curtidas

Em muitos casos o abuso psicológico e moral começa dentro da própria família. É dali que vem a primeira apunhalada que você irá ter na vida. Você nasce e é obrigado a conviver com aquele povo que está ali. O relacionamento é involuntário. O simples fato de dividir uma carga genética não significa que você é compatível com a sociedade familiar que te rodeia.

Isso começa desde muito cedo. Os teus coleguinhas tentam te desqualificar. Começam a por defeito nas suas características físicas, no teu jeito e por aí vai. Parece que eles fazem parte de uma conspiração pra acabar com a tua vida. Não sei como foi a tua experiência escolar, mas a minha foi um pesadelo. Demorei décadas para superar.

2 curtidas

Sei que, infelizmente, é comum. Porém, não faz sentido agir assim com um ser inocente e moldável.
Por exemplo, a fofoca é comumente usada para apontar ao grupo a periculosidade de um indivíduo ou para desmoralizar um rival em potencial. As informações partilhadas sobre uma pessoa e a percepção de quem convive com ela servem para avaliar a fiabilidade e a cooperatividade dela com os outros. Qual é o propósito de um adulto ao utilizar isso contra uma criança? Caso não seja somente por maldade, ela poderia ter algum conflito com os seus pais e tentava os atingir através de você.

“Isso começa desde muito cedo. Os teus coleguinhas tentam te desqualificar. Começam a por defeito nas suas características físicas, no teu jeito e por aí vai. Parece que eles fazem parte de uma conspiração pra acabar com a tua vida. Não sei como foi a tua experiência escolar, mas a minha foi um pesadelo. Demorei décadas para superar.”
Sim. Inclusive, o seu comentário me trouxe uma memória.
Houve um tempo em que eu me trancava na cabine do banheiro escolar das 13:00 até às 17:45, que era o horário de saída. Isso quando já tinha tentado ficar em casa de todas as formas. Nessa época eu não tinha equipamentos portáteis com internet, então passava essas horas brincando com os meus pensamentos. Foi bem vergonhoso quando fui descoberta. Hoje, vejo esse episódio como uma predição da minha vida como hikikomori. Não suportava o ambiente e não sabia lidar com a situação, por isso fugia ou me escondia. No ensino médio não sofria mais bullying, no máximo quase todos os meus colegas me desprezavam. Ainda assim, me sentia mais confortável ficando sozinha na biblioteca nos intervalos. Nunca consegui me integrar a nada. Sinto como se a minha existência fosse antinatural, como se eu fosse defeituosa.

1 curtida

Me apetece que o universo cuide de mim e extinga este erro :bowing_woman:t2::pray:t2:
UnawareCrispCrab-size_restricted (1)-min

1 curtida

O colégio é um brinquedo sádico da sociedade com as crianças. Busca a conformação, a destruição do espírito livre e a submissão na selva de colegas de baixa maturidade.

Foi inventado para ensinar o amor e o respeito à autoridade, sejam os governantes ou sejam os grandes industriais amiguinhos dele. Hoje é apenas um replicador de maus princípios, informação irrelevante e distribuidor de cultura inútil.

Originalmente a adolescência não existia, aos 13 anos as crianças eram logo colocadas para ajudar nos negócios da família, o que evitava essa loucura de impedir as crianças de interagirem com a vida real o mais rápido possível. Valores, princípios e maturidade emocional vindo dos pais deveria ser nosso principal instrumento de aprendizado e crescimento.

Dica de livro: “Emburrecimento Programado” de John Taylor Gatto.

2 curtidas

O relato de vcs é mt parecido com as minha experiências (e falta de outras), Em casa num ambiente tóxico e hostil, na rua e na escola isolamento e humilhações. Também costumava me trancar no banheiro no final do ensino médio assim que chegava e chorava em desespero, não queria que ninguém me visse e tinha a impressão de sempre estarem falando de mim - onde nem os professores te respeitam; Tantas memórias dolorosas que me perseguem dia e noite, que serão sempre cicatrizes espalhadas em mim. Onde pareço estar em um eterno loop, presa no mesmo lugar, vendo todos os antigos colegas de classe crescerem e atingirem seus objetivos ou simplesmente vivendo suas vidas. As mágoas, a raiva, a culpa, as ilusões; O medo eterno de todos e a saudade de uma era feliz de inocência e alegria que faz tanto tempo que parece mentira.

1 curtida